O pudim de ovos é uma das sobremesas mais reconhecidas da doçaria portuguesa. A receita parece simples — ovos, leite e açúcar —, mas basta um pequeno desvio na temperatura ou na preparação para surgir uma textura irregular, com bolhas, ou um doce difícil de desenformar.
Apesar das versões rápidas que hoje se encontram, o pudim feito à moda antiga, cozido lentamente em banho-maria, continua a ser a referência quando se procura uma textura lisa e um sabor equilibrado. Mais do que seguir uma lista de ingredientes, importa compreender o papel do calor, do ar e do tempo.
A textura começa na forma como se mistura
Um dos erros mais frequentes é bater a mistura. Ao recorrer à batedeira, entra ar na preparação, o que favorece o aparecimento dos conhecidos “furinhos”.
O método mais seguro passa por misturar os ovos, o leite e o açúcar com movimentos suaves, usando uma vara de arames ou uma colher de pau, sem criar espuma à superfície.
Para um resultado ainda mais regular, a mistura deve ser passada por um coador de rede fina, duas ou três vezes, antes de ir para a forma. Este passo elimina pequenos resíduos de clara e bolhas de ar que comprometem a textura final.
O caramelo: cor certa e sabor equilibrado
O caramelo não serve apenas para facilitar o desenformar. É também responsável por uma parte importante do sabor.
O açúcar deve derreter lentamente em lume médio, até atingir um tom âmbar claro. Quando escurece em demasia, torna-se amargo e acaba por dominar o sabor delicado do pudim.
Depois de pronto, é fundamental espalhá-lo por todo o interior da forma, incluindo as paredes e o cone central. Um pequeno truque usado com frequência consiste em juntar algumas gotas de sumo de limão ou uma colher de água quente ao açúcar já derretido, para tornar o caramelo ligeiramente mais fluido.
As proporções que garantem estabilidade
Uma receita base equilibrada continua a ser determinante para que o pudim fique firme, mas cremoso:
- 6 a 8 ovos inteiros, responsáveis pela estrutura
- 2 gemas adicionais, para reforçar a cor e a riqueza da mistura
- 500 ml de leite gordo, essencial para a textura mais macia
- 250 g de açúcar, ajustável ao gosto
- Aroma a gosto, como casca de limão ou um pouco de vinho do Porto
Estas quantidades permitem obter um pudim estável, sem recorrer a espessantes ou aditivos.
Banho-maria: o controlo do calor
O banho-maria é o verdadeiro segredo do pudim à moda antiga. O objectivo é cozinhar lentamente, com um calor constante e suave.
A água colocada no tabuleiro deve estar já quente, para evitar choques de temperatura. A forma deve ser tapada, com tampa própria ou com folha de alumínio, impedindo que o vapor de água caia sobre a superfície do pudim.
Durante a cozedura, a água não deve ferver. Deve apenas apresentar pequenas vibrações. Quando a água entra em ebulição, a temperatura torna-se demasiado elevada e a preparação começa a ganhar ar, criando uma textura porosa.
O ponto certo e o tempo de repouso
O pudim está pronto quando o centro se apresenta firme, mas ainda com uma ligeira oscilação ao toque.
Depois de sair do forno, deve arrefecer totalmente dentro da forma, à temperatura ambiente. Só depois deve ser colocado no frigorífico, idealmente durante seis a doze horas.
Este período de repouso permite que as proteínas do ovo estabilizem e facilita o desenformar, evitando que o pudim se parta ou perca a forma.
Um doce que pede tempo
Fazer um pudim à moda antiga continua a ser um exercício de precisão e paciência. Não é uma sobremesa de execução rápida, mas o resultado — uma fatia uniforme, brilhante e suave — mostra que o controlo do calor e a ausência de ar na mistura continuam a ser os dois factores decisivos.












